quinta-feira, 16 de maio de 2013

ESTATUTO DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)


                                           A Carlos Heitor Cony






 
    Artigo I
 
   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira.
 
 
   Artigo II
   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
 
 
   Artigo III
 
   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança.
 
 
   Artigo IV
 
   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.
 
           Parágrafo único:
 
           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino.
 
 
   Artigo V
 
   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa.
 
 
   Artigo VI
 
   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
 
 
   Artigo VII
   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo.
 
 
   Artigo VIII
 
   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor.
 
 
   Artigo IX
   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura.
 
 
   Artigo X
   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco.
 
 
   Artigo XI
 
   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã.
 
 
   Artigo XII
 
   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.
 
           Parágrafo único:
 
           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.
 
 
   Artigo XIII
 
   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou.
 
 
   Artigo Final.
 
   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.
  Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964
 
 
14 de Março (dia nacional da poesia) minha estréia literária ao lado do mestre Thiago de Mello




 

domingo, 28 de abril de 2013

O PARTO





Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário 
que me sofra e me solidifique em poeta, 
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório 
e me alucine na essência de mim e das coisas, 
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro, 
trazer-me à tona do poema 
com um grito de alarma e de alarde: 
ser poeta é duro e dura 
e consome toda
uma existência.

                                                                Nauro Machado


segunda-feira, 22 de abril de 2013

FASCINANTE MÚSICA

Sarau na UERN

Desequilibro-me luxurioso
aos fios bruxuleantes dos teus pelos,
maviosos.
Arquejo brados solitários
à penumbra arterial de apelos,
de um saco embrionário.
Sangram as vísceras em cada canto
à incrível falta estonteante,
do seu estonteante ébrio encanto.
Mas preenche a música...
Fantasma de afago necrófilo,
preenchem-me as notas
de uma guitarra escarlate de sorte,
vem quebrando as portas,
vem me trazendo a morte.


                                                                Yuri Hícaro


terça-feira, 16 de abril de 2013

TE PERTENCER


Ao meu lado a poetiza pau-ferrense Taiza Barros
 


Será que ainda vou te ver
ou será que te perdi só por alguns
segundos?
Oh! Rapaz que dentro de poucos
minutos me falou de amor!

Quero sentir o sabor do seu amor
quero refugiar-me em teus braços,
nem que sejas apenas por um dia.
Sem nem pensar o que pode acontecer,
por uma hora sem saber o porque.
Por um minuto para eu respirar você,
ou até um segundo para navegar  no teu ser!

Quero por alguns instantes
que me faça feliz...
Não sei se te amo
ou vou ser infeliz,
mas quero te dar uma chance...

de me fazer feliz...

Vou deixar tu me amares,
vou me doar a você.
Nem que sejas
apenas por um dia,
vou te deixar ser feliz...
como você sempre quis...

Apenas eu e você.

Não quero te enganar
nem te pertencer,
quero apenas me doar
a você.

As vezes me sinto angustiada
e sinto saudades,
queria pelo menos te ver
ou simplesmente te ter,
por um segundo.
Sem nem perceber ,
junto a mim e dentro de você.

Não sei por que sinto
essas coisas,
nem sei como lhe dizer,
só sei que me doo a você
se você me querer.

Uma lágrima rola em meu rosto
quando penso em você.
Por que será que me sinto assim,
sem sabe o quê, o por quê?

Não sei o que faço,
o que sinto ao te ver.
Não sei se me rendo
ou me restrinjo
ao teu fascínio
de me ter
de me amar...
te pertencer.

Não posso te amar
nem te pertencer,
mas posso me doar a você
se ainda me querer.

                                    Taiza Barros

quarta-feira, 3 de abril de 2013

MÃOS DADAS





     Não serei o poeta de um mundo caduco.
     Também não cantarei o mundo futuro.
     Estou preso à vida e olho meus companheiros.
     Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
     Entre eles, considero a enorme realidade.
     O presente é tão grande, não nos afastemos.
     Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

     Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
     não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
     não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
     não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

     O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
     a vida presente.

                                                                  Carlos Drummond de Andrade