segunda-feira, 7 de abril de 2014

COM OS OLHOS






Teus sorrisos de vinho não respondem
nada disto ou daquilo o que desejo.
Quando muito se mostram, mais se escondem
e se penso que enxergo, menos vejo.

Tenho notado, a noite está contigo
encobrindo as mentiras que me fala.
A julgar as verdades que em mim cala,
parece que ela está também comigo.

Imagino o que posso e o que sonhei:
entre luzes e sombras, as certezas;
entre cruzes e espadas, já não sei.

Por isso, não me atiça que eu te tomo,
despido de pudores, sutilezas,
te como com os olhos, mas te como.


                                                 Cid Augusto



sábado, 5 de abril de 2014

APAGÃO


Poetisa Carioca




Que atraso
Os que lamentam a solidão
Que sufoco
Os que suplicam multidão
Que vazio
Os vasos secos pelo jardim,
Sem sementes, sem grão.
É admirável a fome d'um cão
Abandonado
Jogado no chão
Dia-a-dia
Sem dizer não.

Que desastre
Que desgaste
Desistir a vida.

Que maldade
Malandragem
Que ausência de bondade.

Que atraso
Os que lamentam a solidão
Não sabem que são todos Eles
Um por um, a multidão?


                                                         Ana Pérola Pacheco

quinta-feira, 27 de março de 2014

CENAS CARIOCAS




Em Copacabana,
Drummond,
em bronze,
contempla o vasto mundo,
e não é pedra no caminho de ninguém.

Cada garota
que passa
na Ipanema
de Tom e Vinicius,
um tanto de graça e beleza repassa.

Sobre os acordes de Noel,
um médico
e um turista
discutem em Vila Isabel.

No centenário Bar Luís,
um boêmio cantarola,
bate palmas e pede bis.

Em um sábado musical,
ao canecão fui arrastado
pela "paz" de João Donato.

Político e imortal,
no Glória - suíte presidencial -,
rende-se à poesia de H. Dobal.

Crônicas machadianas
brotam do Cosme Velho,
deslizam por mesas do Amarelinho e da Colombo,
cruzam o Aterro do Flamengo e,
suavemente, submergem
na Baía da Guanabara.

                                   David de Medeiros Leite

quinta-feira, 20 de março de 2014

EU ME SINTO



Jovem Poeta Natalense
        

me sinto.
titubeio
no escuro
à procura de meu próprio cheiro.

meu hímen é uma camada fina de vidro
e o mundo todo é habitado por
vândalos black blocs

não me importo com o gosto...
da saliva. quero saliva.
não me importo com o gosto
do gozo. quero gozo.
não me importo com o gosto
da urina. quero urina.
não me importo com o gosto
do morango radioativo. quero morango radioativo.

num instante qualquer eu quero tudo
não me importo.
quero instantes sempre presentes
como flashes.

quero:

quero o mundo todo numa grande colher de sopa
que é enfiada
pouco a pouco, mas sem cautela
dentro do meu corpo.



                                                        Regina Azevedo







terça-feira, 18 de março de 2014

CANÇÃO

 

Poeta Mineiro

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.


                                      Emílio Moura