domingo, 10 de agosto de 2014

MEDO E O MACACO

William S. Burroughs

Coceira irritante e o perfume da morte
no sussurrante vento sul
Cheiro de abismo e nada
o Anjo Vil dos vagabundos uiva pelo apartamento
como um sono cheirando a doença
Sonho matutino de um macaco perdido
Nascido e sufocado por velhas fantasias
Com pétala de rosa em frascos fechados
Medo e o macaco
Gosto amargo de fruta verde ao amanhecer
O ar lácteo e picante da brisa marinha
Carne branca denuncia
teus jeans tão desbotados
Perna sobre sombra do mar
Luz da manhã
no néon celeste de um armazém
No cheiro do vinho barato no bairro dos marujos
Na fonte soluçante do patio da polícia
Na estátua de pedra embolorada
No molequinho assobiando para vira latas.
Vagabundos agarram suas casas imaginárias
Um trem perdido apita vago e abafado
No apartamento noite gosto d'água
Luz da manhã em carne láctea
Coceiras irritante mão fantasma
triste como a morte dos macacos
Teu pai uma estrela cadente
Osso de cristal no ar fino
Céu noturno
dispersão e vazio.


                                                                         William S. Burroughs




sábado, 9 de agosto de 2014

AMAVISSE

Hilda Hilst

Como se te perdesse, assim te quero
como se não te visse (favas douradas
sob um amarelo) assim te apreendo brusco
inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
a mim me fotografo nuns portões de ferro
ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
no dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
ou contornando um círculo de águas
removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.


                                                                   Hilda Hilst  




SINA

Poeta Areia Branquense 

Deixa-me
seguir minha sina
        - de poeta
E, permita-me,
escrever-te, sem demora,
em seu corpo - meu melhor poema.

                                                                          Luiz Luz
                                                                 Pirata e Dono da Lua


domingo, 3 de agosto de 2014

RENAN LACERDA

Poeta Pauferrense
Não há interesso sentido
muito menos ilusões a buscar
Mais os dias que se estreitam
nunca se tornaram mais longos
Permaneceram no óbito.

E aquele silêncio
de pertinência
com muito calor
ancorado em meio a pele, entre seus seios
era o pingo desolado
sublimado de algum sentimento.

E as cordas que pendiam aquele sentido
se enterraram em terras profundas
se escondendo dos artifícios moldados
que o dia encantou qualquer pensamento comum.


                                                                        Renan Lacerda


TONS SOMBRIOS

Poeta Potiguar
Minha loucura passa
por tantas metamorfoses
que me sinto incapaz de a definir.

Deveria ser qualquer coisa
menos o riso travesso das naturezas-mortas,
que perpassando um vento agreste
sujeita nomeadamente às açucenas, em flor,
à violentas deformações
mesmo que o tempo tente esconder as cicatrizes.


                                                                 José Lima Dias Júnior