terça-feira, 22 de março de 2016

CARLOS NEJAR




O Autor



É noite
Noite desancorada
Noite imenso navio
A demandar outro céu

Noite torturada
Noites de anjos
Revoltados
A morder o horizonte

Noite alucinada
Floresta de febre
Cristais de delírio
Na noite parada

Noite com sede
Não podes reter
O sol
Nas tuas redes

Noite
Tua fome
Ninguém a consome

Noite

Do tempo
A embalar tempo morto

Noite
Desesperada
Não chegarás mais ao porto

Noite
Desesperada
Que farás do filho morto?

Noite a embalar o que fomos

Noite a chorar o que somos

Noite


                                                                               Carlos Nejar





sexta-feira, 18 de março de 2016

FASTIO POÉTICO



Clauder Arcanjo


O sol, belo no horizonte,
E o poeta indiferente.

A ameaça de chuva
Traz o halo de um arco-íris,
E a poesia quieta na ponte.

O fim do dia em lusco-fusco,
E o poema murcho...
No caderno, antes pura fonte.


                                                                            Clauder Arcanjo



terça-feira, 8 de março de 2016

ANA FARRAH BAUNILHA



Ana Farrah Baunilha



Porque eu nasci rachada
partida no meio
toda aberta
ausente de proeminências viris
e por isso não podia
sentar arregaçada, que nem meu irmão
andar sem camisa ou subir nas árvores
não podia brincar de lutinha, porque era
muito 'agarramento'
Eu saía quebrando tudo, de raiva
revoltadinha
quando ganhei o primeiro sutiã
queria ter feito estilingue com ele
pra jogar pedra no telhado da vizinha
_aquela faladeira!
Mas qual!
fui é virar alvo
das pedradas
na vida
(muito Geni)


                                                                             Ana Farrah Baunilha




segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CHAMADO



Jacqueline Bulos Aisenman


falcatrua
a faca atua
tua face
disfarce
cem poderes
podres
sem querer
querendo ser
fases da lua
lunáticos
corpos celestes
testando
os limites
do universo...
imitando
as quedas
das estrelas...
elas dispersas
no cosmos
osmose...
ou o avesso
soa o sino
o destino
chama.


                                                                      Jacqueline Aisenman






domingo, 28 de fevereiro de 2016

DESADORMECER



David de Medeiros Leite 



Ingurgitados,
nossos úberes
desadormecem
alimentando o mundo.

A avidez
com que os sugam
põe em risco
o desjejum
de nossos filhotes
que, pacientes, esperam.





                                                                      David de Medeiros Leite