terça-feira, 5 de abril de 2016

ESPÁTULA


Carlos Gurgel




petrificado tempo
onde a pobreza
mais que pobreza

não se sustenta

metrificado tempo
onde a nobreza
mais que nobreza

não se inventa

delicado tempo
por onde a leveza da vida
não se remenda



                                                                            Carlos Gurgel





segunda-feira, 4 de abril de 2016

SOL NA CASA 5 E LUA NA CASA 3




Leonam Cunha


Não controlamos as angústias
com fita métrica. Na intenção
de aninhar, coser abraços,
gozar e amar com precipício, eu vou.
Eu e alguém - que não chega,
que não chega porra não chega não -
seriamos aquele terreno abandonado,
por onde as moscas sobrevoam,
e se sobrevive bem com paus
e espinhos. Não quero
que me olhes como se me fosses
ver de novo, como se pudéssemos
esquiar em vasto passado.
Eu e alguém - que não chega,
que não chega porra não chega não -
seríamos a fotografia
de uma ancha tragédia efêmera,
um novelo sem começo nem fim,
os ossos de dois fósseis mortos de prazer
descobertos no futuro da civilização.


     
                                                                             Leonam Cunha





terça-feira, 22 de março de 2016

CARLOS NEJAR




O Autor



É noite
Noite desancorada
Noite imenso navio
A demandar outro céu

Noite torturada
Noites de anjos
Revoltados
A morder o horizonte

Noite alucinada
Floresta de febre
Cristais de delírio
Na noite parada

Noite com sede
Não podes reter
O sol
Nas tuas redes

Noite
Tua fome
Ninguém a consome

Noite

Do tempo
A embalar tempo morto

Noite
Desesperada
Não chegarás mais ao porto

Noite
Desesperada
Que farás do filho morto?

Noite a embalar o que fomos

Noite a chorar o que somos

Noite


                                                                               Carlos Nejar





sexta-feira, 18 de março de 2016

FASTIO POÉTICO



Clauder Arcanjo


O sol, belo no horizonte,
E o poeta indiferente.

A ameaça de chuva
Traz o halo de um arco-íris,
E a poesia quieta na ponte.

O fim do dia em lusco-fusco,
E o poema murcho...
No caderno, antes pura fonte.


                                                                            Clauder Arcanjo



terça-feira, 8 de março de 2016

ANA FARRAH BAUNILHA



Ana Farrah Baunilha



Porque eu nasci rachada
partida no meio
toda aberta
ausente de proeminências viris
e por isso não podia
sentar arregaçada, que nem meu irmão
andar sem camisa ou subir nas árvores
não podia brincar de lutinha, porque era
muito 'agarramento'
Eu saía quebrando tudo, de raiva
revoltadinha
quando ganhei o primeiro sutiã
queria ter feito estilingue com ele
pra jogar pedra no telhado da vizinha
_aquela faladeira!
Mas qual!
fui é virar alvo
das pedradas
na vida
(muito Geni)


                                                                             Ana Farrah Baunilha