terça-feira, 12 de julho de 2016

AGRADO


Carlos Gurgel


escondi no quarto
meus olhos
encobertos de salivas
e saudades

lá também percebi
os teus braços
adormecidos de desejos
e vontades

no chão
junto ao tapete
dei pelos meus rastros
como se fosse regresso

e na janela
entre um luar e outro
a imaginação do coração
pulsando como se fosse uma criança


                                                                           Carlos Gurgel



segunda-feira, 25 de abril de 2016

REGINA AZEVEDO




A autora


sinto muito não ser assim suave
você disse que aquele pássaro
era da cor do meu cabelo

mas ele era vermelho

e nosso amor está em algum lugar
entre o voo e a extinção da espécie

meu cabelo é laranja
laranja porque sou poeta

(e prefiro ter cara de poeta
a ser bonita)

você estava andando na rua
viu um pássaro
e lembrou do meu cabelo

isso diz muito sobre
seus olhos
esses, sim, vermelhos


                                                                          Regina Azevedo






quinta-feira, 21 de abril de 2016

ALEX MOURA




O Autor


Na discrepância
casual do destino
de um marginal
num mundo
socialmente corrompido
por seres
que deixaram
de ser humanos vivos
para serem bichos
nesse mundo distorcido
mortos na inconstância do momento
na boca
exalando excremento
e na mente
exaltando o pensamento
de crescer
e ser
na fossa dessa era
o tolete evidente


                                                                             Alex Moura





ARDOR




Iracema Macedo


Um oceano inteiro não basta
para calar no meu peito
este murmúrio
de tantas formas de ardor
tantas formas de estar banida e só
e não há terra ou chuva
que arrefeça
esta porção de mim
que trago cálida
essa porção de mim
que trago presa
esse meu coração cheio de vespas


                                                                             Iracema Macedo



domingo, 17 de abril de 2016

POEMINHA BÊBADO




Marcelino Freire


ele chega e me aperta
peito dentro do peito
ao meu pobre coração
fala mais de um segredo
engole a minha saliva
me sequestra um beijo

aí depois vem com desculpas
me diz no outro dia
"é que eu estava bêbado"

ele pula em meu pescoço
me lambe cheiro por cheiro
molha de nicotina
todos os meus pelos
na cama me ama e grita
que é homem e não tem medo

aí depois vem com desculpas
me diz no outro dia
"é que eu estava bêbado"

ele chega em meu ouvido
contorcido de desejo
come meu rabo o bandido
me humilha de joelhos
clama assim que eu chupe
cada um de seus dedos

aí depois vem com desculpas
me diz no outro dia
"é que eu estava bêbado"

seu merda filho da puta
desculpas desse tipo de novo
já disse que não aceito
porque mais bêbado do que eu
neste mundo não existe
nenhum outro sujeito


                                                                                Marcelino Freire