quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL



Manuel Bandeira



        João Gostoso era carregador de feira livre e morava no Morro da Babilônia num barracão
        sem número
        Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
        Bebeu
        Cantou
        Dançou
        Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

                                                                                    Manuel Bandeira


                                   

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

CARTÃO DE NATAL





    Pois que reinaugurando essa criança
    pensam os homens
    reinaugurar a sua vida
    e começar novo caderno,
    fresco como o pão do dia;
    pois que nestes dias a aventura
    parece em ponto de voo, e parece
    que vão enfim poder
    explodir suas sementes:

    que desta vez não perca esse caderno
    sua atração núbil para o dente;
    que o entusiasmo conserve vivas
    suas molas,
    e possa enfim o ferro
    comer a ferrugem
    o sim comer o não.


                                            João Cabral de Melo Neto

           
   

sábado, 8 de dezembro de 2012

SÂNDALO FÚLGIDO

O poeta



                Tu éis
                 o sândalo fúlgido que outrora embreagava
                                                         o céu da pátria.

                Cruzes crusam cruciais,
                na inércia da sobrevivência...
                pra inércia da imprudência...
                sobre a inércia da benevolência.
                Eu pinto acordes e anelos,
                pra nas ruas e avenidas de outros réus,
                acalentar-me em beijos teus...
                                                           com violência.

               O medo
               irrequieto desvanesceu.
               Escrava da rotina,
               a luz brilhou no elmo em raios turvos,
               num fascínio escambo pródigo,
               num flagrante inconsistente
               dos meus ecos primitivos...
                                                                prodígios;

               vi em você o condor que sente ser...
                                                   no céu, a crisálida.       

                                                                     
                                                                                Yuri Hícaro        












terça-feira, 27 de novembro de 2012

À MERCÊ DO EU




Mario Gerson, maior responsável pelo movimento Novos Poetas.



Estou onde meus dedos doem...
Onde meus dedos somem,
Na fagulha acesa do dia
Assombrando solitários sóis,
Que alumiam vagas manchas de saudade,
Impregnadas numa pele qualquer.

II
Meus amanhãs nunca morrem
Nesta soma comum de tantos nadas,
Em que se solidificam vertigens.

III
Quantos corpos, nesta noite,
Jogados ao relento das horas,
À mercê do Eu!

                                                                 Mário Gerson


Obra do poeta mossoroense, "A Noite de Luvas Brancas".



domingo, 25 de novembro de 2012

OS VERSOS QUE TE GUARDEI

Poeta de Areia Branca



Os versos que te guardei
     Não carregam bandeiras,
     Não exaltam cânticos,
     Não estão nos muros;
Estão na mente, no corpo, no beijo...
Os versos que te guardei
     Não estão nos livros,
     Não estão nos templos,
     Não voam ao vento;
Estão na pele, nos olhos, no cabelo...
Os versos que te guardei
     Não confidenciam segredos,
     Não afastam seus medos,
     Não conjugam seu verbo;
Estão na boca, mordida, pescoço...
Os versos que te guardei
     São vida, mesmo em morte;
     São morte, mesmo em vida.
Os versos que te guardei
Serão sempre os versos em que te perdi.
                                                                Luiz Luz