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Jarbas Martins |
I
Questi sono
i miei fiume
- Ungaretti
Sob um céu de ferrugens
e salitre
nutre o Potengy
sua podre geografia
da Ponte de Igapó
sucata de extintas viagens
escultura fantasma
que une a cidade
ao manguezal do tédio
divisa seus limites
e ante a ofensa azul do mar
escondem-se os Refoles
- refúgio de piratas
e dragas sonolentas
preso entre a anquilose
e a baixa voltagem dos crepúsculos
contempla
a colisão do trem contra a paisagem
suga os alicerces
de velhos casarões
que armazenam
como um troféu
a lembrança
do último domingo de regatas
o apito estrangulado do cargueiro
agrava a paz
da tarde portuária
e denuncia o peixe
sob as locas
à margem de gamboas
e caminhos de caranguejos
os mortos do Cemitério dos Ingleses
bebem as águas residuais
do rio.
II
Stamani mi sono distesco
in un'urna d'acqua
e come una reliquia
ho riposato
- Ungaretti
então este rio Potengy
talvez não seja mais que uma memória
azulcicatrizações de gordas sombras
e águas semoventes
uma espada de mercúrio
do flanco esquerdo da Ponte de Igapó
à Pedra do Rosário
atravessará o coração do rio
mas isto se dará
entre a 25ª hora
e a Hora Oficial da Abolição dos Mangues
uma garça de petróleo
estancará seu voo
sob a mira de um canhão de raio laser
deste porto de miasmas zarpará
o último cargueiro
em busca de um país
onde os peixes cegos riem
aonde os peixes jamais irão
Jarbas Martins
Poema indicado por Tácito Costa, jornalista.
ResponderExcluirFonte: Preá 27 Maio , Junho, Julho 2014