sábado, 15 de agosto de 2015

BARRO VERMELHO NINHO DE POESIA

Palmyra Wanderley


Meu Deus, como ele é triste e desolado!
Parece o "Só" de Antônio Nobre, coitado!
Dizem que nos ramos das árvores
Prediletas
Fazem versos os pássaros poetas.
E a levada, tão clara e tão bonita,
Começa a recitar.
E murmura também alguma coisa
De um romance que agrada,
De José de Alencar.
Não há naqueles sítios submersos,
Na sombra de arvoredos tão fechados,
Um passarinho que não faça versos.
É que ele assim tão só, tão escondido,
Tão feito para o sonho que repousa,
Houve um tempo em que foi o Hôrto preferido
Da grande poetisa Auta de Sousa.
Ela ia ensinar aos pássaros do verão
A poesia terna, doce, mística, sonora
E tão triste, do coração.
E corre, como certo,
Que eles levavam à mestra de presente
Ramos de flor no bico,
Apanhados na água corrente,
Ou colhidos na mata, ali, por perto,
Se algum dos passarinhos se feria
No espinho da roseira,
Ou na arma cruel do caçador,
Ela lhe servia de enfermeira.
E quando ele voava, já curado,
Pela mata sombria, ou pelo céu,
Em busca de encontrar da companheira
O carinho, o conforto.
Cantava, muito alto, na ingazeira:
- Venham ver como é bondosa a poetisa do "Hôrto"!

Anos depois, a morte tão temida,
Num dia azul, sem véu,
Levou a poetisa, tão querida,
Para fazer versos, lá, no Céu.

Dizem que nesse dia de tristeza
Para toda a cidade,
Enquanto lá no céu havia festas
Pela sua chegada,
Todos os passarinhos conhecidos
Choravam de saudade.

Os tempos passam, voltam os desenganos,
Há em todo prazer qualquer tristeza;
Barro Vermelho guarda em seus arcanos
Muita coisa dos tempos do bruxedo...
E ouvi muito contar e se espalhou,
Que foi ali à sombra do arvoredo,
Onde a bela do bosque adormeceu cem anos
E a poesia se santificou.



                                                                       Palmyra Wanderley





Um comentário:

  1. Essa pérola foi indicada pela professora e poetisa Diva Cunha!
    Fonte: Preá 27 Maio, Junho, Julho 2014

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